Barata Luize
- Guto Meneghin
- 24 de jun.
- 2 min de leitura
Jean Genet, reza a lenda, passou a aceitar todas as acusações que lhe faziam, mesmo que não as tivesse cometido. Não via injustiça nisso, mas santidade. Era uma capacidade extraordinária de acolher a violência e a hipocrisia dos outros dizendo um mero "sim". "O que resta de valor espiritual depois disso?", pergunto-me. Cada um pega a parte do rosto que deseja de nós e cria sua ficção, sua justificativa, usa-a como lhe convém para obter meia dúzia de prazeres. No fundo, pra quem olha muito tempo para o sol e para a morte, esses comportamentos tornam-se irrelevantes. Quem precisa de nós para subir um degrau que seja na escada da própria significância deve estar realmente desesperado e com o corpo cheio de venenos. Muitas vezes essa posição na cadeia da vida aparece invertida, travestida de poder e relevância. No caso dos escritores e escritoras, os saraus e as mesas de discussão, essas conversas de livrarias, essas centenas de feiras e afins acabam sempre me trazendo a sensação de que os microfones são metralhadoras, oportunidades vazias, o momento de falsa glória para quem vive necessitado de ser ouvido. Gradativamente fui me afastando disso, pegando uma certa repulsa do falatório homogêneo e do dizer para pertencer, mas de vez em quando acabamos caindo numa armadilha, geralmente por causa de sexo ou de prostitutas que não cobram em dinheiro. Foi numa dessas, eu estava entrando em estado hipnagógico quando vi uma barata infame, correndo de lá pra cá, babona e bem vestida: "Escutem-me, papai e mamãe, escutem-me vocês como eu sou um grande corno, violado e espetado pela solidão humana, mas agora redimido em meu espaço perfeitamente ético onde todos adoçam seus cafés com esterco e lágrimas." – arregalei e cocei meus olhos, queria ter certeza de que ela havia dito aquilo. Ela piscou como quem flertava comigo e soltou um gás de vidência, abrindo um campo de visão transcendente. Pude ver então que, ao contrário de Genet, o público se esforçava para administrar uma seringa letal de positividade e levantar o pau de pano do palestrante. Uma pessoa que ia fazer uma pergunta acabou contando a história de sua vida e todos caíram em lágrimas. Outra se sentiu encorajada e fez a mesma coisa, seguida depois pela sala toda, depois a rua e, no dia seguinte, todo o quarteirão estaria cheio disso. Ambulâncias de psicanalistas chegaram, agentes do Sesc, fiscais de cu, patrões, editoras de nicho, cantores de mpb não-monogâmicos trazidos por seus cachorros de alumínio e ordem, franjinhas de brechó, uma seita de petistas e todo o fã-clube de Itamar Vieira Jr. Eu não tinha saída. Fui feito de xamã involuntário por uma barata metida a traficante mercurial. Minha boca não abria mais. Dois pregos, um em cada pé, prendiam meu corpo naquela cadeira universal de eventos. "Você vai ouvir Luize, agora, meu docinho?" – era a voz da barata, vinda de alguma escuridão. Como Genet, eu disse sim. Estava com medo de ficar acorrentado ali para sempre. "Luize vai fazer uma massagem coletiva, observe". Então começaram os aplausos.




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